terça-feira, 3 de março de 2015

Uma carta

Neste momento de sua vida, tem vários mitos/ditados/sabedorias que eu gostaria de contar para você. 

Eu poderia lhe falar, por exemplo, do do dito que "Deus" não lhe dá um fardo maior que você pode carregar; poderia falar da sabedoria da borboleta, que transforma seu corpo rastejante e limitado em beleza e liberdade; ou da lenda da águia, que ao chegar a 40 anos de idade precisa arrancar suas próprias penas e bico, passando por um processo doloroso e necessário para renovar-se e viver mais 30 anos; ou falar da ética do guerreiro viking que se entrega à batalha sem medo da morte, porém para alcançar a glória em Valhalla ("paraíso" nórdico) precisa lutar ferozmente por sua vida -- por isso eram considerados os mais bravos guerreiros da antiguidade. Poderia falar até do ditado que diz que a Deusa é uma ótima cirurgiã e uma péssima anestesista. Tem também a lenda da Fênix, que renasce de suas próprias cinzas, mas essa lenda você deve conhecer bem.

Mas eu prefiro me ater em outra história, que não é lenda nem mito: é uma história real e digna de grande sabedoria. É a história de uma mulher que desafiou uma cidade inteira para ser feliz, mesmo que para isso precisasse sacrificar a convivência com quem lhe era mais preciosa, sua criança, e por essa escolha, passou maus bocados. Mas conseguiu reconstruir sua vida e reatar laços. Essa mulher perdeu um filho, por incompetência médica, mas um dia, superou. Essa mesma mulher, muitos anos depois, teve uma grande decepção amorosa, talvez a maior de sua vida e sofreu muito por isso, inclusive fisicamente, mas conseguiu se reerguer e acabar de criar sozinha, uma filha adolescente. Nos últimos anos o coração desta mulher anda sendo maltratado e sofrendo com a própria ilusão. Mas assim que descobriu a verdade, em vez de se jogar num poço profundo de amarguras ela sabe que seu caminho é sempre em frente e a cabeça deve manter-se erguida. Agora veio a notícia que todos nós temíamos, o seu corpo pede ajuda, o corpo, reflexo de uma alma calejada. Mais uma vez eu tenho fé na força dessa mulher, no espírito guerreiro que ela tem, que vai sobrepujar esta enfermidade e não apenas isso -- vai usar esta oportunidade para renascer mais forte: assim como fez a borboleta, assim como fez a águia em sua lenda.

Ser forte não significa ser isento de emoções. Ser forte é superar a dor e angústia e transformá-la em força através da fé -- fé seja lá no que for, mas antes de tudo fé em você mesma.

Eu já ia esquecendo de uma parte muito importante da história de vida desta guerreira: ela teve um bebê de seis meses em condições hospitalares inimagináveis (se é que se podia chamar aquilo de hospital) e mesmo sofrendo com as consequências do parto cesariano, perdendo sangue, com seu corpo fragilizado e infeccionado, de meia em meia hora ela amamentava essa criança para que tivesse uma chance de vida. Essa criança não apenas sobreviveu, como em cinco meses de vida estava plenamente saudável, e aqui estou eu hoje, mãe, aos 32 anos de idade, aparentemente com a saúde perfeita.

Eu tenho fé em você, e sinto que irá conseguir passar por mais essa com a graciosidade de uma borboleta e a grandiosidade de uma águia. Sua hora ainda não chegou, sua missão aqui na Terra ainda está por ser completada, pois você ainda está em débito com você mesma: alcançar a serenidade em vida, e você vai conseguir isso, e essa enfermidade será sua parede transformada em porta.

Eu amo você e preciso de você, e não apenas eu. Seja forte, tenha fé, nós estamos aqui por você.